Caçadores da Pirâmide Invertida
Oren estava certo de que, desta vez, encontraria mais informações sobre o símbolo da Pirâmide Invertida. Não era só ambição — havia algo de pessoal nisso. Desde criança, estudava os restos do Antigo Império, e esse símbolo aparecia de forma recorrente e misteriosa. Vender a descoberta ajudaria a pagar dívidas, claro, mas decifrar os segredos de um passado esquecido seria a realização de uma vida!
Estar de volta em terras inexploradas, depois de meses nas Cidades, era reconfortante… e levemente apavorante. Perigos espreitavam por todo canto.
— Ainda bem que tenho você como companhia, Taran. — A figura gigantesca, coberta de metal dos pés à cabeça, respondeu com um leve aceno. Não se podia esperar mais que isso. Taran havia feito um voto de silêncio anos atrás e não parecia interessado em quebrá-lo.
Oren seguia um mapa amarrotado que conseguira nas Cidades depois de muita negociação e… um pouco de trapaça. O destino: uma ruína perdida, descoberta por caçadores que foram longe demais. Pela descrição, as pedras eram do período em que o Antigo Império ainda dominava todo o continente.
— Deve ser um lugar agradável e seguro. Do jeito que você gosta, Taran. — O homenzarrão revirou os olhos.
Após semanas de viagem sem estrada, contando apenas com a experiência e o mapa mal rabiscado, a dupla chega a um amontoado de pedras muito suspeito.
— Esperava mais que esse pedrisco mal empilhado… Mas, se for mesmo da época que eu penso, deve haver uma entrada subterrânea. O pessoal do Antigo Império adorava esconder estruturas no subsolo… vai entender!
Explorando entre os blocos de pedra, encontraram uma pequena escadaria quase oculta por raízes, descendo até um corredor úmido e frio. Oren, animado, acendeu uma tocha e avançou na frente. A passagem levou a uma porta de pedra decorada com símbolos antigos. Ele tocou a superfície, sentindo o entalhe sob os dedos.
— É isso, Taran, este deve ser o acesso principal. — Tentou empurrar e forçar a porta, mas ela não cedeu. Procurou um mecanismo, um encaixe secreto, qualquer coisa. Nada!
Duas horas depois, estavam sentados no chão, suados, cobertos de poeira e com a maioria das tochas queimadas.
— Sabe o que é pior? — disse Oren, largando um pedaço de ferro improvisado para abrir frestas — Essa maldita porta provavelmente dá para uma despensa vazia. — Taran apenas bufou.
O gosto amargo da frustração que sentiam fazia com que seus rostos se retorcessem, como se tivessem comido algo estragado. Enquanto retraçavam o caminho até a superfície, encontraram, por acaso, uma passagem estreita que passara despercebida na ida. Oculta nas sombras de uma laje de pedra, a pequena passagem só foi revelada porque a mudança na direção da luz alterou as sombras. As caras relaxaram e as caretas viraram um leve sorriso.
— Sei que você não fala, mas às vezes queria que risse dos meus comentários sagazes. Já estamos aqui há horas e… — A mão de Taran no peito de Oren tirou o seu ar e o fez parar abruptamente. O gigante apontava para uma rachadura no chão, larga o suficiente para engolir um homem. Se não tivesse parado o companheiro, seu próximo passo poderia ter sido o último.
— Descer não seria ruim… mas a forma como descemos importa. — Oren amarrou cordas e testou a borda. Minutos depois, estavam na escuridão de uma câmara circular de teto abobadado.
As paredes eram cobertas de inscrições antigas.
— Falam do reinado de Cat-lon, o Último Imperador… e quem escreveu não gostava dele. Aqui diz que era um “porco corrompido que—” — Um estalo interrompeu Oren. A câmara vibra. O piso cede no centro, revelando um sarcófago preso por correntes.
Com um aceno, Taran foi direto remover as pedras caídas. Oren, com brilho nos olhos, disse:
— É agora, meu amigo. Tudo o que procuramos pode estar aí dentro.
Uma pancada com as costas do machado de Taran quebrou as correntes sem arranhar a pedra. Na tampa, a figura de um homem ajoelhado diante de uma silhueta repleta de estrelas. Oren empurrou a tampa, que caiu com um baque no chão. Lá dentro, um corpo enfaixado, incrivelmente bem preservado para alguém morto havia mais de 800 anos. Na mão, um pequeno cetro dourado.
— Não vai se importar se eu pegar isso, né? — dedos ágeis contornaram o objeto, evitando tocar a mão seca.
Os olhos do morto se abriram e, num movimento rápido, agarrou o pulso de Oren.
— Acho que ele se importa, Taran! Acho que se importa! — O gigante derrubou o inimigo com uma ombrada, mas Oren foi junto para o chão.
— Já que estamos assim, cara a cara… não saberia nada sobre a Pirâmide Invertida, certo? — disse Oren, sentindo o hálito milenar em seu rosto.
O morto se soltou, recuou, recolocou o braço deslocado e avançou novamente com energia renovada. Seus braços e pernas envolveram Oren como uma aranha enrolando a presa, e uma luz fantasmagórica começou a sangrar dos olhos de Oren para os da criatura.
— Pirâmide Invertida? Sim… os caminhos e segredos do cult—
BAM! Um golpe certeiro do machado de Taran separou a cabeça do corpo, e um segundo golpe partiu o crânio ao meio.
— Taran! Ele ia me contar! E sim, talvez estivesse sugando minha alma, mas ainda assim… fonte primária! — Oren se levantou, incrédulo. Taran deu de ombros.
De volta à superfície, Oren girou o cetro nas mãos.
— Pelo menos não saímos de mãos vazias. Isso deve valer o suficiente para bancar outra expedição. E então, Taran… rumamos de volta às Cidades? — Um breve silêncio, seguido de um aceno.
— Ótimo. E da próxima vez que encontrarmos um morto falante, por favor, deixa ele terminar pelo menos uma frase!