
Sussurros na Floresta - um exercício de escrita de uma história curta

A alguns anos eu já venho assistindo (as vezes mais de uma vez) aos vídeos das aulas do Brandon Sanderson de escrita de literatura fantástica que estão disponíveis no canal dele do Youtube. São excelentes!
O vídeo que eu sempre me vejo indo e voltando é o da aula de Short Stories (Histórias Curtas). O Sanderson é conhecido por escrever longas e longas páginas e ele tem total consciente disso! Por isso ele chama uma parceira dele, a autora Mary Robinette, que é especialista em histórias curtas, para dar essa aula em específico.
O conteúdo da aula dela é bastante formuláico, mas acho que tudo bem, porque a proposta dela é escrever uma história de 250 palavras, ali, no ato! Ela da um passo a passo bastante rígido, mas que da pra ser abstraído e extrapolado para múltiplos casos e narrativas mais longas, como ela mesmo aponta. No fim das contas, acho que a aula é ótima e vale ser assistida por todos que tenham interesse em escrever histórias.
Bem, eu, finalmente, consegui um tempo para fazer o exercício que ela propõe! Segui os passos e os tempos em cada etapa da escrita, me mantive dentro do número de frases para cada parte do texto e... falhei em todos esses pontos! Acabei usando o dobro do tempo proposto (mais ou menos 6 minutos por parte) e escrevi mais de 600 palavras. Em parte, isso tem a ver com a língua, já que inglês e português são muito diferentes. Acho que os textos em português acabam sendo mais longos por conta da estrutura da língua. (Quem já traduziu alguma coisa do inglês sabe bem disso!)
A experiência foi muito boa e eu devo escrever mais destes contos curtos no futuro. Abaixo deixo a versão revisada da história que escrevi. Espero que gostem!
Sussurros na Floresta
Mesmo com o sol a pino, as copas densas das árvores bloqueavam quase toda a luz. Martin sacudiu seu frasco com vaga-lumes para iluminar o caminho entre os troncos ancestrais. As raízes serpenteavam o solo, e os galhos pareciam sussurrar, mas ele seguia com passos firmes.
Uma semana vagando pela região norte da Floresta do Fim não havia quebrado seu espírito — mesmo faminto, exausto e com as provisões no fim, ele continuava. Se havia uma chance de encontrar a Caçadora e salvar Anee, sua irmãzinha, ele a agarraria com tudo.
Ele segurava com esforço uma corda que puxava maca improvisada onde Anee, frágil e febril, estava deitada. O cavalo tinha sido abandonado a dias por conta do terreno acidentado.
— É só subir esse barranco, Anee. Tenho certeza de que ela está do outro lado.
— Você disse a mesma coisa ontem... quando cruzamos aquele rio.
A subida era traiçoeira. As pedras soltas cediam a cada passo, exigindo de Martin um esforço cada vez maior. O suor escorria, e os músculos queimavam. Ele usava o que tinha à mão — raízes como apoio, a corda entre os dentes — até que, por fim, o topo se aproximava.
Com um último impulso, alcançou o cume. E parou, boquiaberto.
— Não pode ser...
A luz agora era abundante. Uma clareira se abria à sua frente, mas terminava abruptamente em um penhasco gigantesco. Dali, via-se a floresta se estendendo novamente no vale abaixo. Não havia caminho adiante. Descer por aquela escarpa parecia impossível, ainda mais carregando Anee.
— Irmão... — disse ela, fraca. — Eu não consigo mais...
— Não se preocupe — respondeu Martin. — A gente vai seguir em frente!
Sem hesitar, começou a trabalhar. Retirou a corda da maca, desmontou alças da mochila, juntou pedaços de madeira e uma pedra grande. Rapidamente, uma engenhoca improvisada foi criada para içar a irmã penhasco abaixo.
Anee o observava, silenciosa, os olhos cheios d’água.
— Eu não acho que aguento muito mais, Martin...
Com um sorriso, ele prendeu a maca na engenhoca que deslizou devagar pela lateral do penhasco. Anee se surpreendeu com a vista da floreta sob sol poente e mal percebeu quando chegou ao solo firme.
Agora era vez de Martin.
Ele só precisa usar a corda para descer a escarpa e continuar a viagem. Mas, já no meio da descida, um estalo alto corta o ar e Martin percebe que a corda, já gasta pelo uso, cedeu.
Em queda livre, Martin só teve tempo de se preparar para o impacto. Virou o corpo e tentou rolar, mas sua perna esquerda atingiu o chão primeiro. O estalo do osso quebrando ecoou pela mata, assustando os pássaros. Ele gritou, mas não desmaiou.
Subitamente, uma voz que parecia um farfalhar de folhas ao vento ecoa:
— Um nobre sacrífico.
Das sombras das árvores aparece a entidade: uma mulher de enorme, vestida com peles e plantas entrelaçadas, seu cabelo é uma massa de fios e folhas de todas as cores. Um arco enorme repousava em suas costas. Seus olhos brilhavam no sol e sua respiração pulsava com a floresta.
— O preço foi aceito. Agora me digam: o que vocês querem em troca?
Martin mal pensou. Apenas respondeu, ofegante:
— Salve... salve a minha irmã...
A entidade assentiu.
— Sua perna esquerda agora é minha. Mas sua irmã viverá. A troca foi feita. Agora partam. Esta floresta é minha para caçar!
Martin sorriu. A cabeça caiu contra o solo e, enfim, ele se permitiu apagar.
…
— Irmão, acorda! O sol já nasceu!
O cheiro do orvalho. O calor suave da manhã.
Martin abriu os olhos devagar. Anee estava ajoelhada ao seu lado. O rosto antes pálido agora estava corado. Seus olhos brilhavam com vida. Ela sorria.
Ele tentou se mexer. Não havia dor. Mas sua perna... simplesmente não estava mais lá. O tecido esfarrapado da calça estava vazio.
— Bem — disse ele, se sentando—, agora vamos arrumar nossas coisas e dar um jeito de sair daqui.
— Mas... e sua perna?
Ele sorriu de novo.
— Não se preocupe. A gente vai seguir em frente!